terça-feira, 7 de julho de 2009

NUM PISCAR DE OLHOS


Lúcia trabalha na mesma empresa há dezesseis anos. Viu muita gente passar pela tradicional distribuidora de bebidas da região. Uma empresa familiar, que conserva aqueles aspectos meio caseiros, como móveis que a gente que olha tem certeza que ficariam muito bem em algum antiquário, ou até mesmo na casa dos proprietários. Uma dificuldade imensa em assimilar os tempos modernos está espalhada em todos os setores desta empresa, alguns funcionários da mesma época de Lúcia simplesmente não agüentaram a onda de mudanças e foram embora. Lúcia ficou resistindo ao tsunami de informações e correções a que deveria se submeter. Escrever e-mails com uma linguagem corporativa adequada? Para quê essa frescura? Esse é o comentário que ela faz à sua colega de setor, na mesa ao lado. A resposta é sempre algo motivador, que tende a transformar a questão em algo supérfluo: “Não liga, boba, é o gerente novo querendo mostrar serviço, logo isso passa”.

Quatro demissões depois, Lúcia percebeu que o mostrar serviço do novo gestor não “passou”. Sua mesa, cheia de papéis com pequenas anotações, sua mania de querer fazer tudo para se sentir mais útil e responsável, estar sempre aparentando estar atarefada demais, aquela mania de decidir quase como se fosse parte da família não eram mais garantia de seu emprego. O que fazer? Ah! Esses cursos superiores não valem nada! São apenas para essas faculdades ganharem dinheiro! Não ensinam nada nesses lugares que eu não saiba fazer aqui!
Uma semana depois, o gerente, mostrando serviço, apresentou a toda a empresa o plano de Cargos e Salários. Um silêncio mortal tomou conta de todos os que estavam na empresa desde os tempos em que aqueles móveis foram comprados. Um arrepio percorreu Lúcia, ruborizada diante de todos, querendo levantar no meio da reunião e dizer tudo que tinha vontade contra aquele invasor, que nada sabia sobre a empresa, sobre a história daquela organização tão tradicional! O plano revelava que somente os que buscassem a formação superior teriam direito à promoções, aumentos e recolocações no organograma. Bem, Lúcia “já” era supervisora. Não tinha muito com o que se preocupar, estava garantida no seu confortável cargo. Ninguém conhecia o andamento como ela, sempre fazia questão de explicar os detalhes para os mais novos, mesmo que fosse a décima vez. “Esses mais novos acham que entendem das coisas, ainda bem que estou aqui”.
Lúcia não percebeu, mas havia algo errado naquela semana. As coisas visivelmente iam mal, uma carga roubada, atrasos nas entregas, o gerente correndo de um lado para o outro. Bem, seu trabalho não estava sendo influenciado, emitia notas e recibos o tempo todo, controlava os horários dos caminhões, entre algumas outras coisas. Sua amiga da mesa ao lado, no meio da tarde, piscou para ela e levantou-se, indo em direção à garrafa de café. Lúcia entendeu o recado e foi atrás. “Olha só” – disse a amiga – “O prejuízo desta vez foi muito grande, estão querendo saber por que as notas saíram com datas invertidas e horários alterados”. Lúcia gelou, ela emitiu as notas, mas não lembra de ter feito algo errado, o acúmulo de pequenas funções estava atrapalhando a memória, a amiga continuou: “Me diga como deixou acontecer isso? Esse gerente novo vai te cobrar por isso!
Agora, realmente, Lúcia não sabia o que fazer. Estava entre a vida e a morte, e decidiu apelar para o jogo mais corporativo, sumiu com as notas. Reuniões e mais reuniões foram feitas, Lúcia se defendia afirmando que entregou as notas para o operacional, e que as cópias foram juntas por engano, não havia como provar que Lúcia tinha errado nos horários e nas entregas. Alguns dias depois, a poeira baixou, e as coisas voltaram praticamente ao normal.
Numa tarde qualquer, uma vontade súbita de tomar um café levou Lúcia à garrafa, que ficava de frente para a porta do Recursos Humanos, onde outro funcionário-relíquia fazia cara feia para uns documentos. “Não sei como pode ser tão difícil contar dinheiro para pagar os outros e fazer a entrega de vales-refeição e vales-transporte”, pensou Lúcia, numa crítica interna. Neste mesmo instante, o gerente parou para tomar junto o café, e foi chamado pela relíquia do RH. A porta era de vidro, dava para ver que olhavam juntos o documento. No mesmo instante, a amiga da mesa ao lado foi chamada à sala. Algo estava realmente acontecendo, e era grave, pela expressão no rosto do gerente.
Voltou à sua mesa, e continuou com suas tarefas, a amiga voltou para a mesa ao lado, parecia tranqüila. Lúcia piscou para ela, e foi até a garrafa de café, mas a amiga não foi. Estranhou, pensando que ela, talvez não tivesse prestado atenção. Ainda estava distraída quando a moça do RH a cutucou, indicando que deveria ir à sala do gerente.
Dava para ver Lúcia ruborizada, segurando as notas que havia errado. Nesta mesma perspectiva, a amiga da mesa ao lado, agora supervisora, lixava as unhas, de costas para a cena.
A moça do RH saiu da sala, piscou para a nova supervisora, e foram juntas saborear um café.

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