segunda-feira, 10 de maio de 2010

PREJUÍZOS CULTURAIS - Terceira Parte - A teledramaturgia


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Estou pronto para, depois deste texto, ouvir as reclamações libertárias do tipo: “exagero seu, é apenas diversão, afinal, o que seríamos sem nos divertir um pouquinho?”, ou ainda “você está louco, vendo coisa onde não tem nada”, e também “a única diversão do pobre, e você ainda critica?”.
Já respondendo às questões levantadas acima, em primeiro lugar, na minha opinião, brasileiro se diverte demais. E para finalizar, também sou pobre.
Não. Não sou contra novelas, afinal, é um excelente meio de faturamento, geração de empregos e entretenimento. O problema é que, após descobrir-se como tal, a novela brasileira passou a ser
considerada um “arauto das verdades sociais”, o que por si só, já representa certo perigo. Não pode haver muita verdade na ficção, pois esta corre o risco de confundir-se e influenciar mais do que deveria, e é exatamente isso que acontece com a novela brasileira, mais especificamente a produção da Rede Globo, hoje sendo seguida de perto pelas tramas da Record, que ainda flertam um pouco com história e fantasia.
Um bom exemplo é a distorção cultural provocada pela temática das novelas. Por muitas vezes os autores tentam levar a uma inculturação, à penetração em outros meios de vida, e acabam por ridicularizar costumes e crenças, como se isso fosse praticamente uma obrigação em todos os roteiros. Basta para isso perceber como a religiosidade é ridicularizada, como fazem com os evangélicos em várias situações, mostrando apenas pessoas fanáticas e intolerantes; também quando falaram dos turcos, de costumes mulçumanos, sempre mostrando que “o lado que está mais certo” é o lado dos que são permissivos, que não cultivam nenhum tipo de crença ou apenas concordam com aquelas que são liberais, como o espiritismo. Neste caso, mostram a filantropia e mensagens bonitas, ainda assim, sem incentivar a prática. O motivo? Qualquer cidadão que realmente pratique uma religião, fatalmente será induzido a não assistir novelas, ou a, no mínimo, fazê-lo com moderação e discernimento, afinal, tem algo melhor pra fazer, nem que seja ficar em silêncio.

Marcante e chato.
Carla Diaz, a Khadija da novela " O Clone" levou ao popular a expressão "inshallah", que no islã quer dizer "queira Deus" ou algo semelhante ao nosso Oxalá. De uma forma banal, a bela expressão tornou-se mais um bordão noveleiro.

O comportamento excessivamente liberal da juventude também é incentivado pelas tramas. A modernidade e liberdade são facilmente confundidas, e a mensagem que a novela adolescente “Malhação” transmite é banal, disfarçada por um bom mocismo superficial. É hoje um ícone de formação de opinião da juventude, pois sua audiência é formada justamente por uma parcela da população em formação, cuja aceitação das mensagens é muito mais fácil, ainda mais quando endossadas por protagonistas famosos, gente bonita vida fácil e muito consumismo.

Balão Mágico
A turminha acima é da Malhação ID. Jovens globais vendem uma juventude fácil, divertida e cheia de aventuras afetivas. Tudo bem, eu sei que se você quiser, hoje, você vai dar um passeio de balão com seus amigos. Amanhã vocês podem ir à praia, que vida boa né? Ah, não posso deixar de mostrar o resultado de tamanha produção cultural, são essas coisas que nos deixam orgulhosos. Veja o vídeo abaixo:


"Você que me faz forças pra viver", não é lindo?

Logicamente, é difícil acreditar que alguém tenha pensado em prejudicar outras pessoas com sua produção quase cultural, mas é muito aceitável pensar que ninguém está interessado em passar uma mensagem que incentive a crítica e o pensamento. Mostrar campanhas de cunho filantrópico e utilizar a dramaturgia para passar mensagens sociais já é clichê, praticamente uma obrigação, assim como o merchandising dos celulares e cosméticos nas cenas. Não há nenhum aproveitamento cultural, pois os lugares, as locações, a informação cultural ficam ofuscados pela imensa quantidade de material publicitário e das mensagens de viés moral duvidoso, como o sexismo, adultério e libertinagem juvenil. Basta ver, por exemplo qual foi o personagem que marcou a trama da novela Caminho das Índias: a Norminha, esposa adúltera cujas investidas durante o sono do marido eram acompanhadas pela trilha sonora de uma das pérolas da música Nacional, a banda Calcinha Preta. Norminha virou celebridade, Dira Paes ficou “sexy”, os patrocinadores ficaram contentes, e a massa aceita com passividade e normalidade a história contada, afinal, uma novela demonstra o que é a realidade. A dúvida que permanece é: a vida imita a arte, ou a arte imita a vida? A resposta, talvez, no próximo capítulo.

Tirem as crianças da sala
Norminha virou exemplo para a mulher brasileira.


Solução
A solução é praticamente a mesma da parte II da série de artigos. Ninguém se convence a mudar de hábito apenas com algumas palavras. Conhecer é preciso, se aprofundar, ler e buscar informações relevantes para a vida. A diversão é necessária, o entretenimento também, mas como disse no começo do texto, o brasileiro se diverte demais, seja assistindo, ou tentando viver uma vida de novela. Mas pode ter certeza, alguém está se divertindo muito mais, rindo por último, e melhor.

3 comentários:

Fabio Balemberg disse...

concordo plenamente. Sem contar que as novelas seguem um gabarito para não perder Ibop

glatuf disse...

Jesus... infelizmente a dura realidade de nosso patrimonio cultural mais significativo, os jovens e o nosso (sic) futuro.
Daqui a alguns anos, portugues será matéria optativa nas escolas.
Educação moral e cívica já não existe.
Ética ninguém saberá o que significa.
E o último a sair da sala apaga a luz.Haverá sim o "novelês", para aprendermos a falar os arebabas da vida.

ALLAN LUIS PEREIRA disse...

Caraca! O Fábio apareceu, temos que tomar um café irmão! Sem dúvida, o Ibope mede somente números, nunca qualidade. E Gilson está pra lá de certo, o último que sair, apaga a luz.